Um procedimento minimamente invasivo, que consiste na colocação de válvulas endobrônquicas no pulmão, está sendo empregado para tratar pacientes com enfisema pulmonar em estágio avançado no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS).

O enfisema é uma doença progressiva das vias respiratórias, caracterizada pela dilatação excessiva dos alvéolos. Com o tempo, o paciente perde a capacidade de respirar normalmente, pois o ar se acumula nos pulmões, que aumentam de volume. O tabagismo é o principal fator desencadeante.

Editoria de Arte/Folha Imagem

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Em caráter experimental, a Santa Casa de São Paulo vem utilizando uma outra técnica para permitir a saída do ar represado no pulmão doente. Trata-se de um dreno, que fica exposto ao ambiente, que deve ser trocado semanalmente e usado a vida toda. Nove pacientes foram operados até agora.

No Moinhos de Vento, cerca de 40 pessoas já foram atendidas. Antes do procedimento, o paciente é sedado e recebe uma anestesia tópica. Com o auxílio de um broncoscópio, o médico coloca as válvulas –três, em média, com cerca de 4 mm cada uma– no pulmão afetado. O procedimento dura cerca de uma hora e o paciente pode ter alta já no dia seguinte.

“A válvula permite isolar uma área do pulmão para evitar que ela aprisione ar e comprima áreas menos afetadas”, diz o médico Hugo Goulart de Oliveira, um dos coordenadores do Núcleo de Tratamento do Enfisema do hospital.

Amarilio Macedo, outro coordenador do núcleo, explica que as válvulas são levadas aos brônquios segmentares ou subsegmentares do pulmão, onde se abrem. A partir de então, quando o paciente inspira, a válvula se fecha, redirecionando o ar para outras áreas do pulmão. Ao expirar, o dispositivo se abre, permitindo que o ar saia da parte doente e reduzindo o volume pulmonar.

Embora não seja capaz de reverter a doença, o procedimento melhora a qualidade de vida dos pacientes com enfisema em grau avançado ao permitir que eles voltem a fazer atividades que tinham sido obrigados a abandonar –coisas simples, como tomar banho ou andar na rua. “Nós apostamos na qualidade de vida, não no aumento da sobrevida. Isso é uma interrogação porque não existe tempo nem estudo para saber se [a técnica] está aumentando o tempo de vida”, afirma.

O procedimento não é indicado para todos os pacientes. O alvo do tratamento são aqueles que sofrem de enfisema heterogêneo, que não acomete todo o pulmão igualmente. “Estima-se que a cada dez, três sejam candidatos”, diz Oliveira.

Até agosto do ano passado, quando as válvulas foram aprovadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para tratar o problema, as únicas alternativas para pacientes com a doença severa eram a cirurgia de redução do volume pulmonar e o transplante.

De acordo com Oliveira, a colocação da válvula é a técnica endoscópica que se encontra em estágio mais avançado. “Já passou por todas as fases de pesquisa e está em uso comercial na Europa e no Brasil.”

Para Arthur Rothman, pneumologista do hospital Albert Einstein, ela tem bom respaldo fisiopatológico porque age de maneira contrária à doença, mas são necessários mais casos para avaliar a relevância do tratamento. “Ainda faltam evidências estatísticas para referendá-la, mas a técnica promete. Ela vem “substituir” a cirurgia de redução de volume pulmonar porque é muito pouco invasiva, relativamente simples e traz pouca complicação. É uma enorme vantagem”, acredita.

Já a pneumologista Iara Fiks, do Hospital São Luiz, ressalta o fato de que nem todos os pacientes podem ser tratados com essa técnica. “É uma luz no fim do túnel para alguns que se encaixam no critério de inclusão. A vantagem é que não tem a morbidade da cirurgia redutora, mas, se indicar a colocação para o paciente errado, ele não vai ter benefício algum.”

No fim de outubro, médicos de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia estiveram em Porto Alegre para aprender a técnica.

Embora tenha sido aprovada em 2008, nem todo plano de saúde paga o procedimento.

Fonte: Rachel Botelho – Folha de S.Paulo